A Liderança Feminina no Mercado da Tecnologia: Catalina Prevett

“Provamos o nosso valor no nosso dia-a-dia de várias formas, e com muita garra. Quanto mais mulheres tivermos a frente de organizações, maior será a mudança em nossos bairros, cidades e países, finalmente chegando a mudança mundial que tanto precisamos”, Catalina Prevett. 

Você sabia que o primeiro algoritmo a ser processado por uma máquina foi criado por uma mulher? O seu nome era Ada Lovelace.

Foi também uma mulher que criou o primeiro software de computador, Grace Hopper.

E a irmã (sim, uma freira) Mary Kenneth Keller foi o primeiro norte-americano a obter um PhD em Ciência da Computação. A irmã também participou da criação da linguagem BASIC.

Não podemos deixar de mencionar a equipe que coordenava o primeiro computador da história, o Eniac, formada por mulheres.

Esses casos não são exceções, a participação das mulheres no mercado da tecnologia nem sempre foi baixa como nos dias de hoje. A primeira turma de computação do IME, em 1974, era composta por uma grande maioria de alunas, 70%.

Já hoje, as mulheres ocupam em média 10% dos cursos de Engenharia e Ciência da Computação no Brasil. Quando olhamos para o mercado de tecnologia, somente 30% dos cargos são ocupados por mulheres. Em relação a cargos executivos entre 5 a 10% das empresas de tecnologias no Brasil são gerenciadas pelas profissionais.

Os desafios não param quando essas mulheres alcançam tais cargos e funções dentro do mercado da tecnologia, uma vez que a diferença salarial e os abusos e preconceitos enfrentados no dia-a-dia persistem. O salário das mulheres que trabalham com TI no Brasil costumam ser 34% menor que o de seus colegas de sexo masculino. Quando se trata de cargos de gerência essa diferença aumenta ainda mais, chegando a uma diferença de 65%.

Então por que esse cenário mudou de forma tão drástica? Como um cenário com forte presença feminina passou a ser amplamente dominado pelos colegas do sexo masculino?

A computação era um desdobramento do curso de matemática, tradicionalmente com mais mulheres. Além disso, o início da computação também tinha relações estreitas com o secretariado e o processamento de dados, áreas que na época eram dominadas por mulheres. Foi na década de 80 então que tudo mudou. Quando os computadores viraram um negócio bilionário, com mainframes em todas as empresas e a proliferação dos PCs, os homens passaram a dominar esse mercado.

A Softruck, diferente de muitas das empresas citadas, conta com a co-fundadora Catalina Prevett em sua direção.

Pedimos para Catalina compartilhar hoje, no Dia Internacional da Mulher, a sua experiência no mercado de tecnologia e discutimos algumas das questões citadas acima. Ela partilhou conosco a sua visão sobre o papel da mulher no mercado, as possíveis dificuldades e contou um pouquinho sobre os obstáculos que ela enfrenta.

Catalina, de origem Uruguaia, nem sempre soube qual área gostaria de seguir profissionalmente.

Sempre teve interesse em tecnologia mas não considerava a profissão na área. Chegou a cursar história, medicina e até gastronomia. Acabou optando pelo curso de Engenharia, muito interessada em “entender como as coisas funcionam”, se encontrou no curso.

Catalina Prevett, Co-fundadora da Softruck Catalina Prevett, Co-fundadora da Softruck

Quando questionada sobre a diferença de gênero na sua universidade, em Montevideo, no Uruguai, Catalina afirmou a maioridade masculina. Mas nos contou que na sua sala em específico, o número de mulheres chegava a mais de um terço do total.  

“Em geral a representatividade feminina era boa e a repressão das mulheres era bastante baixa. Mas tinha uma aula especifica que o professor era muito rígido e sempre escolhia os homens para falar, por mais que várias alunas estivessem com a mão levantada demonstrando interesse em expressar sua opinião. Esse tipo de atitude desgasta as mulheres que decidem ingressar no setor, obviamente”.

Porém, foi na mudança para o Brasil em 2014 que Catalina sentiu um maior preconceito com o sexo feminino no setor da tecnologia e em como as mulheres que faziam parte deste mercado eram vistas.

A cultura Brasileira é muito mais machista que a Uruguaia. Claro que também temos machismo no Uruguai, mas é um machismo disfarçado. No Brasil é evidente. Fiquei muito impressionada quando cheguei. Até que essa cultura não mude, não vai ter tanto espaço e reconhecimento para as mulheres no setor da tecnologia.

Mas essa mudança não acontece de um dia para o outro. Ela começa em casa, no dia-a-dia, desde da maneira como um esposo fala com a sua esposa e o exemplo que é dado aos filhos.

Já no mercado da logística, encontramos muitas mulheres no comando, conheço mulheres muito bem reconhecidas na área, tanto em transportadoras, empresas de rastreio e associações. A representatividade é bem maior.”

Para Catalina, o mercado tecnológico é abundante, mas ainda muito fechado. Acredita estar começando a se modernizar agora mas que as raízes conservadoras ainda são persistentes.

Catalina encerra nossa entrevista dando um recado para todas as mulheres interessadas em ingressar no mercado da tecnologia:

“Entre sabendo que o mercado é assim. Mas não saia na defensiva, demonstre que você está aí porque você merece estar aí, que você também é competente. Não deixe os comentários machistas tirar o seu interesse. Deixe entrar por um ouvido, sair pela outro e siga em frente.

Provamos o nosso valor no nosso dia-a-dia de várias formas, e com muita garra. Quanto mais mulheres tivermos a frente de organizações, maior será a mudança em nossos bairros, cidades e países, finalmente chegando a mudança mundial que tanto precisamos”.

Créditos a fotógrafa Valentina Bonasso pela foto de destaque.